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DIREITO NATURAL E O ESTOICISMO Ronaldo
Rebello de Britto Poletti O
estoicismo, corrente filosófica predominante na Antigüidade Clássica durante
mais de cinco séculos (300 a.C. – 200 d. C.), não alcançou
as alturas da filosofia de Platão e de Aristóteles, mas foi a ideologia do Império,
a base do Direito Romano e a grande preparação para o Cristianismo. Exerceu
forte influência nos Padres da Igreja (Santo Ambrósio adaptou o De
Officiis de Cícero ao uso dos clérigos). O humanismo e o naturalismo estóicos
ressurgiram na Reforma e no Renascimento e estão presentes em Montaigne,
Pascal, na moral cartesiana, no monismo de Spinoza e no vitalismo de Leibniz. Com
a hegemonia macedônica, já não havia ambiente para a grande filosofia. A Pólis
foi substituída pelo Império. No lugar da cultura helênica, a helenística. O
homem da cidade política deu lugar ao cosmopolita. A
Filosofia estóica compreenderia três partes, em uma analogia com o ovo: casca
= lógica; clara = física; gema = ética A ética é o centro. Todas as questões
colocam em causa o mundo onde o homem vive (física), a razão de que ele dispõe
(lógica) e a felicidade a que tende (ética). O Logos
requer uma matéria sobre a qual se exerça, exprimindo uma relação com o
mundo. Para os estóicos o Universo é tudo o que é corpóreo e semelhante a um
ser vivo, no qual existiria um sopro vital (pneuma),
cuja tensão explicaria a junção e interdependência das partes. O
Universo está animado por um princípio absoluto que é o Logos
= Razão Universal = Alma = Ratio = Verbum.
O Logos invade e move a matéria, com ela se identificando, como havia
dito Heráclito. A visão é Panteísta. Os estóicos rejeitaram os deuses
antropomórficos do Olimpo, identificando-os com determinadas realidades físicas;
desaguaram em um monoteísmo, que é uma maneira de descrever a Unidade do
Universo dominado por um princípio ativo. Deus se identifica com o Cosmo,
enquanto artesão e gerador eterno do organismo cósmico; por outro lado, o
mundo é distinto de Deus, já que o organismo cósmico está sujeito a um
movimento de absorção e de regeneração no fogo primordial. A
lei racional que governa o mundo é o destino, mas a Providência estóica é
diferente da Providência Divina do Cristianismo (razão subsistente ordenada a
um fim, através da ação movida por amor). O
homem (microcosmo que reproduz a estrutura do mundo) é uma totalidade psicossomática.
A alma é um corpo, fogo, sopro, parcela do Logos.
Tudo é corpóreo (o incorpóreo contém meios inativos e impassíveis, como o
espaço vazio ou aquilo que se pode pensar as coisas e não elas próprias).
A divindade é imanente ao mundo. Deus é o princípio animador do
universo, cuja causa intrínseca é a lei reguladora do cosmo e
também do homem. O ser e o dever ser se confundem. Para
os estóicos, a divindade que prescreve para a natureza seu comportamento é a
própria natureza. Lei é a expressão do próprio ser. O fim do homem é viver
conforme a natureza, comum e própria dos homens, vale dizer conforme a razão.
A irracionalidade é banida tanto na natureza como na conduta humana. Nem acaso
nem desordem. O processo cósmico é dotado de racionalidade. A
doutrina panteísta da racionalidade imanente do Ser, princípio e essência do
universo, permite aos estóicos dar sólido fundamento à idéia de um “justo
por natureza”. O direito natural encontra no estoicismo a sua primeira formulação
precisa. Os estóicos desenvolvem a tese de Platão relativa a uma lei ditada
por uma reta razão (lógos alethés, lógos orthós),
identificando esta razão com uma natureza que é a própria Realidade, Deus,
dando ao direito natural um fundamento metafísico, que justifica seu valor
absoluto. A
natureza governada pelo Logos é justa e divina. Deus governa o universo com justiça. Para
os estóicos o Direito deve ser a tradução em termos positivos da lei da Razão
universal.
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