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Apresentação A
capa da Notícia do Direito Brasileiro
no 8, nova série, revista da Faculdade de Direito da
Universidade de Brasília, estampa, tal como nos números anteriores, a imagem
de um símbolo romano: a Loba, cujo original se encontra no Museu do Capitólio.
A estátua da Loba é etrusca, atribuída a Vulca (V século a. C.), mas os gêmeos
Rômulo e Remo, os fundadores lendários, que nela se amamentam, foram
acrescentados por Antonio Del Pollaiolo (1471). Em
1960, assinalando a coincidência entre a cerimônia do 2713o
aniversário da fundação de Roma – o qual se festeja a 21 de abril – e o
nascimento de Brasília, foi entregue ao encarregado de negócios do Brasil
junto ao Quirinal, uma reprodução da Loba e uma coluna do Fórum Romano. O
presente encontra-se na Praça do Buriti, na porta do Palácio do Governo,
simbolizando a rima histórica e cultural entre Roma, a cidade eterna, e Brasília,
a cidade da futura civilização dos trópicos. Na
inauguração solene, em 28 de maio de 1982, do Centro de Estudos de Direito
Romano e Sistemas Jurídicos, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília,
o vice-prefeito de Roma doou à nova entidade uma cópia, em ponto menor,
daquela estátua. A
Notícia do Direito Brasileiro, desde
o seu primeiro número, em 1970, tem como divisa inscrita em seu frontispício a
frase de Ulpiano – Iuris prudentia est
divinarum atque humanarum rerum notitia iusti atque iniusti scientia – de
onde tirou o nome “Notícia” e revelou o seu espírito interdisciplinar,
visualizando o direito em suas múltiplas relações com os mais variados campos
do conhecimento. Em
suas últimas edições, a revista tem publicado trabalhos de direito romano,
mas agora traz à lume parte da pesquisa a propósito do pensamento romanista
brasileiro, no âmbito do Intercâmbio Cultural Brasil–Itália, convênio
entre o Consiglio Nazionale Delle Ricerche D’Italia (CNR) e o Conselho
Nacional de Pesquisa (CNPq). A pesquisa (ver histórico em minha nota introdutória)
foi coordenada pelo referido Centro de Estudos de Direito Romano e seu principal
resultado é a bibliografia brasileira de direito romano, que se publica com a
revisão final do professor José Carlos Moreira Alves. Moreira
Alves contribui, ainda, com dois textos: “O direito romano e a formação dos
juristas – perspectiva para o novo milênio” e o discurso
proferido no Instituto dos Advogados do Distrito Federal, ao receber o prêmio
Pontes de Miranda, em 6 de novembro de 2000, quando assinalou a coincidência de
sua formação romanista com a do grande jurista alagoano, integrante da plêiade
de civilistas de acentuada formação romano-germânica, com que a Faculdade de
Direito do Recife brindou o Brasil, no final do século XIX e no início do século
XX: Clóvis Bevilaqua, Lacerda de Almeida, Eduardo Espínola e Pontes de
Miranda. Daí o orador haver revelado que “o pouco que tenho sido e que sou na
área jurídica devo, em grande parte, aos estudos desse milenar direito a que
me dediquei desde os bancos acadêmicos na antiga Faculdade Nacional de Direito,
no Rio de Janeiro...” e estar “convencido de que um dos fatores que muito
tem contribuído para a queda de qualidade de estudantes e bacharéis está no
descaso de nossas autoridades de ensino em propiciar a eles, com um currículo
universitário compatível, todos os elementos necessários à formação no
campo do direito, de uma cultura humanística...
Para isso, é indispensável que retornemos aos estudos de história do direito,
especialmente do romano...” Como
resultado da pesquisa, a título de amostra, são publicados um artigo a propósito
do pensamento romanista brasileiro sobre os direitos reais (professor Carlos
Eduardo de Abreu Boucault) e outro com minhas observações sobre o direito público
romano no Brasil. A
propósito do romanismo, edita-se texto da palestra do professor Ion Dogaru, da
Universidade de Cracóvia, dada aos alunos de direito romano, por ocasião de
visita à UnB, em novembro de 2000, intitulada “A parte jurídica da
latinidade do povo romeno”. A
revista contempla, também, outros assuntos de relevância jurídica
desenvolvidos pelos professores da Casa: modificações unilaterais qualitativas em contratos administrativos (Lucas Rocha Furtado); história
antiga sobre o abuso do poder econômico no direito eleitoral (Carlos Roberto
Pellegrino); a inconstitucionalidade da Lei no 10.028/2000
– alterações penais para o cumprimento da lei de responsabilidade fiscal –
(Carlos Frederico de Oliveira Pereira); teoria do direito na modernidade
(Alexandre Bernardino Costa); sigilo profissional nos crimes de lavagem de
dinheiro (Inocêncio Mártires Coelho). Dois
ilustres colegas de fora da UnB enriquecem a revista com notáveis matérias:
direito no Estado federado ante a globalização econômica (Paulo Luiz Netto Lôbo)
e uma homenagem a Gilberto Freire em seu centenário (Cláudio Souto). São
publicados os resumos das dissertações de mestrado defendidas durante o ano de
2000 na Faculdade de Direito e algumas resenhas elaboradas por professores
(Loussia Mousse Félix, Humberto Jacques de Medeiros e José Geraldo de Sousa Júnior)
a respeito de livros da lavra dos estudantes dos cursos jurídicos da UnB, da pós-graduação
e da graduação, com destaque para a monografia a propósito do preâmbulo da
Constituição, de Patrícia Fontes Marçal, e outra acerca das medidas provisórias,
de Janine Malta Massuda. Publica-se, ainda, da doutora Miracy Barbosa de Sousa
Gustin, da Universidade Federal de Minas Gerais, uma resenha do livro da
professora Añón Roig, da Universidade de Valência, na Espanha, sobre os
fundamentos das necessidades e direitos humanos. Na
parte da Memória, a revista, prosseguindo em seus registros históricos,
divulga comunicação de Machado Neto em Congresso Latino-americano, datada de
1965, quando ele era coordenador do Instituto Central de Ciências Humanas da
UnB, atinente ao estudo da Teoria Geral do Direito na Escola, que o autor ajudou
a fundar e cujas contribuições culturalistas exerceram grande influência na
determinação epistemológica do nosso curso de direito. Enfim,
com esse número da Notícia do Direito
Brasileiro, máxime se considerarmos os trabalhos de direito romano, podemos
saudar a Loba Capitolina com os versos do poeta latino Propércio (século I a.
C.), escolhidos por Afonso Arinos de Melo Franco, como uma das epígrafes de seu
livro Amor a Roma: “Oh!
loba de Marte, digna do nosso império, como ela cresceu, a cidade que
amamentastes com teu leite!”
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